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O que é Scan to BIM: digitalização, nuvem de pontos e modelação

Fala-se de Scan to BIM como se fosse um único serviço, mas são três trabalhos distintos com entregáveis distintos. Separá-los é a forma mais rápida de pedir aquilo de que realmente precisa e de não pagar pelo que não vai usar.

Scanner Leica RTC360 a captar o interior de um coletor de água em Barcelona
Neste artigo
  1. Scan to BIM numa frase
  2. Fase 1 · A captura
  3. Fase 2 · O que obtém da digitalização
  4. Fase 3 · A modelação BIM
  5. Precisão do scanner ≠ precisão do modelo
  6. Como encomendar um Scan to BIM
  7. Erros que vemos repetir-se

Scan to BIM numa frase

Scan to BIM é o processo de digitalizar em 3D um edifício ou uma infraestrutura que já existe e converter essa medição num modelo BIM. O scanner laser mede milhões de pontos da realidade; depois, uma equipa técnica interpreta essa nuvem de pontos e modela sobre ela paredes, lajes, pilares, tubagens ou equipamentos como objetos BIM com a sua geometria e os seus dados.

A frase é curta, mas esconde três fases que convém não misturar:

  1. A captura: ir a campo e medir.
  2. O que obtém da digitalização: uma nuvem de pontos registada, que já é um entregável útil por si só.
  3. A modelação BIM: interpretar a nuvem e convertê-la num modelo com objetos, tipos e propriedades.
IfcWall1 · Capturascanner, SLAM, drone2 · Nuvem de pontosmedição registada3 · Modelo BIMobjetos com dados
A nuvem diz onde há algo; o modelo diz o que é.

Quase tudo o que se escreve sobre Scan to BIM apresenta-as como uma cadeia contínua. Na prática, cada uma tem o seu custo, o seu prazo e a sua forma de falhar. E há projetos que só precisam das duas primeiras.

Fase 1 · A captura: o que se mede e com quê

A captura é o trabalho de campo. O seu objetivo é um só: registar a geometria real do ativo com a precisão e a cobertura de que o modelo vai precisar. Não mais, porque a sobrecaptura também custa; e não menos, porque voltar a campo custa mais.

Scanner laser terrestre (TLS)

É a ferramenta de referência para Scan to BIM de interiores, instalações e estrutura. O scanner é colocado num tripé, roda sobre si próprio e mede distâncias com um feixe laser. Um equipamento como o Leica RTC360 dá uma precisão de ponto 3D de 1,9 mm a 10 m e 2,9 mm a 20 m segundo a sua ficha técnica, e capta até dois milhões de pontos por segundo. Fazem-se dezenas ou centenas de estações, sobrepostas entre si, até cobrir o ativo.

SLAM (scanner móvel)

O scanner vai na mão ou numa mochila e mede enquanto se caminha. É muito mais rápido em percursos longos —galerias, naves, pisos em open space, património com muitas divisões— em troca de um pouco mais de ruído do que o terrestre. Usamo-lo, por exemplo, em levantamentos de património onde a rapidez e a continuidade do percurso pesam mais do que o milímetro.

Drone: LiDAR e fotogrametria

Para coberturas, fachadas altas, terreno e envolvente, o scanner de solo não chega. Um drone com LiDAR ou com câmara fotogramétrica completa o que falta. O normal num edifício é combinar: terrestre dentro, drone fora, tudo unido numa única nuvem.

Registo e georreferenciação

Cada estação do scanner mede no seu próprio sistema de coordenadas. Registar é encaixá-las todas num único conjunto coerente, seja por sobreposição entre nuvens, por alvos ou por pontos de controlo. Georreferenciar é colocar esse conjunto em coordenadas reais (ETRS89 / UTM em Espanha) com apoio topográfico. Se o modelo tiver de coincidir com cartografia, com outro edifício ou com um projeto de urbanização, este passo não é opcional.

O registo é onde se ganha ou se perde a precisão do conjunto. Um scanner milimétrico mal registado dá uma nuvem centimétrica. Por isso o relatório de registo —com o erro médio entre estações— deveria fazer parte da entrega.

Fase 2 · O que obtém da digitalização (antes de modelar o que quer que seja)

Aqui está o ponto que mais se ignora: no fim da captura e do registo já tem um entregável completo. Ainda não é BIM, mas para muitas decisões é suficiente.

EntregávelO que éPara que serve sem modelar
Nuvem de pontos registadaMilhões de pontos XYZ com cor e intensidade, num sistema de coordenadas únicoMedir distâncias, alturas e secções; verificar se algo cabe; base para qualquer modelação posterior
Panorâmicas 360°Fotografias esféricas tiradas a partir de cada estaçãoPercorrer o ativo a partir do escritório e ver etiquetas, estados e pormenores
OrtoimagensVistas planas à escala geradas a partir da nuvemAlçados de fachada, plantas de teto, inventário de elementos
Secções e plantas 2DCortes da nuvem a uma cota ou plano dadoDesenhar plantas CAD do estado atual sem passar por BIM
Visualizador webA nuvem publicada para abrir no navegadorPartilhar com toda a equipa sem licenças de software

Formatos da nuvem

  • E57: o formato neutro, definido pela norma ASTM E2807. Guarda os pontos, os seus atributos e as imagens do scanner. Se só pedir um formato, peça este.
  • RCP / RCS: o formato do Autodesk ReCap, o que se liga diretamente em Revit e AutoCAD.
  • LAS / LAZ: habitual em topografia, SIG e drone.

Um exemplo real: no Canal de Santillana, para o Canal de Isabel II, o entregável principal foi a nuvem contínua de mais de 12 km de condutas. O objetivo era documentar o estado real para inspeção e manutenção; não era preciso modelar cada troço em BIM para isso.

Fase 3 · A modelação BIM: de pontos a objetos

A nuvem diz onde há algo. O modelo BIM diz o que é. Modelar é interpretar: decidir que este conjunto de pontos é uma parede de 30 cm, que aquele é um pilar metálico HEB-200, que essa superfície curva é uma tubagem de 150 mm com o seu isolamento.

Esta fase é feita por uma pessoa, não pelo scanner, e é a que concentra a maior parte do prazo e do custo. O que a define:

  • Software e formato. Normalmente Revit (RVT) com exportação para IFC, o formato aberto da buildingSMART (ISO 16739-1). Há fluxos em Archicad, Tekla ou outros quando o cliente trabalha com eles.
  • Disciplinas. Arquitetura, estrutura, instalações (MEP), ou só alguma. Cada disciplina acrescentada multiplica o trabalho.
  • Nível de desenvolvimento (LOD). Quanta geometria e informação leva cada elemento. Explicamo-lo a fundo no guia de níveis LOD.
  • Classificação e propriedades. Que código leva cada objeto (GuBIMClass, Uniclass…) e que dados se preenchem. Pormenores em sistemas de classificação BIM.
  • Tolerância de modelação. Quanto se pode afastar o modelo da nuvem. É a secção seguinte, e é a que evita mais discussões.

Um pormenor que faz a diferença: a realidade não é reta. As paredes têm desaprumos, as lajes têm flecha, as tubagens não são perfeitamente paralelas. O modelo BIM, pelo contrário, tende para o ideal. Decidir quando se modela a deformação e quando se «endireita» dentro da tolerância faz parte da encomenda, não é uma decisão que o modelador deva tomar por conta própria.

A precisão do scanner não é a precisão do modelo

É a confusão mais frequente, e vem de misturar as fases 2 e 3. Que o scanner meça com 2 mm de precisão não significa que o modelo BIM esteja a 2 mm da realidade.

A especificação LOA (Level of Accuracy) da USIBD separa-o bem em dois conceitos:

  • Precisão medida: a da nuvem, a que resulta da captura e do registo.
  • Precisão representada: a do modelo, ou seja, quanto se afasta cada objeto modelado da nuvem.

E define cinco níveis, expressos com 95 % de confiança (2σ):

NívelIntervaloUso típico
LOA10mais de 50 mmVolumetrias, estudos de massa
LOA2015 – 50 mmArquitetura para estudo prévio e reabilitação
LOA305 – 15 mmArquitetura e estrutura para projeto de execução, MEP
LOA401 – 5 mmElementos industriais, encaixes de fabrico
LOA500 – 1 mmMetrologia, casos muito concretos

Atenção a um pormenor das letras pequenas: as fichas dos scanners costumam dar a precisão com 68 % de confiança (1σ), enquanto a LOA fala de 95 %. Não são valores diretamente comparáveis. Na maioria dos edifícios, LOA20 para arquitetura e LOA30 para estrutura e instalações é um ponto de partida razoável.

Como encomendar um Scan to BIM sem surpresas

Uma boa encomenda cabe numa página e responde a estas perguntas:

  1. Para que vai ser usado o modelo? Reabilitação, manutenção, concurso, coordenação de instalações, inventário. Tudo o resto deriva daqui.
  2. Precisa de modelo ou basta-lhe a nuvem? Se só vai medir e desenhar plantas, a fase 2 pode ser suficiente.
  3. Âmbito físico: que pisos, que zonas, interior e exterior, coberturas.
  4. Disciplinas e categorias: a lista concreta do que se modela (paredes, portas, pilares, tubos de queda, esteiras…) e do que não se modela.
  5. LOD e LOA por disciplina.
  6. Sistema de coordenadas: local ou georreferenciado, e em que datum.
  7. Formatos: RVT e versão, IFC e versão, nuvem em E57 e/ou RCP.
  8. Classificação e propriedades que cada objeto tem de levar.
  9. Controlo de qualidade: como se vai verificar o modelo contra a nuvem (o ideal, um mapa de desvios).

Se não tem todas as respostas, é normal. É precisamente o que definimos na primeira reunião, antes de mandar alguém a campo.

Erros que vemos repetir-se

  • Pedir «LOD 400 de tudo». Encarece e alonga o projeto sem que ninguém vá usar esse detalhe. O LOD decide-se por disciplina e por uso.
  • Não pedir a nuvem. O modelo é uma interpretação; a nuvem é a medição. Quando surgir uma dúvida daqui a dois anos, o que a resolve é a nuvem. Guarde-a.
  • Digitalizar sem saber o que se vai modelar. Captam-se zonas que ninguém modela e faltam as que eram mesmo precisas: tetos falsos por abrir, salas técnicas fechadas, coberturas sem drone.
  • Não fixar a tolerância. Sem uma LOA acordada, qualquer desvio é discutível e a revisão torna-se opinião contra opinião.
  • Confiar em desenhos antigos «para ir mais depressa». O sentido de um as-built é precisamente não depender deles.

Se está a preparar um projeto e quer validar o âmbito, conte-nos no formulário abaixo. Dizemos-lhe que fases precisa realmente e quais pode poupar.

Perguntas frequentes

Dúvidas habituais

Que diferença há entre uma nuvem de pontos e um modelo BIM?

A nuvem de pontos é uma medição: milhões de coordenadas XYZ com cor e intensidade, sem saber o que é cada coisa. O modelo BIM é uma interpretação dessa medição: paredes, lajes ou tubagens como objetos com tipo, dimensões e propriedades. A nuvem diz onde há algo; o modelo diz o que é.

Que precisão tem um modelo Scan to BIM?

Depende de duas coisas distintas: a precisão da captura (com um scanner terrestre, da ordem dos 2 a 5 mm às distâncias habituais) e a tolerância com que se modela, que se acorda na encomenda. O habitual é fixá-la com a especificação LOA da USIBD, por exemplo LOA30 (5 a 15 mm) ou LOA20 (15 a 50 mm).

Em que formato é entregue a nuvem de pontos?

O formato neutro é o E57 (norma ASTM E2807), que abre em quase qualquer software. Para trabalhar em Revit ou AutoCAD entrega-se também em RCP/RCS da Autodesk, e para topografia ou SIG em LAS/LAZ.

É possível entregar o modelo em IFC além de Revit?

Sim. Modelamos em Revit e exportamos para IFC, o formato aberto da buildingSMART (ISO 16739-1). Convém indicá-lo na encomenda: um IFC bem exportado exige mapeamento de categorias e propriedades, não basta carregar em «exportar».

Uma digitalização com drone ou SLAM serve para fazer BIM?

Sim, consoante a tolerância. O scanner terrestre dá a melhor precisão para interiores e MEP; o SLAM é mais rápido em percursos longos, com um pouco mais de ruído; o drone (LiDAR ou fotogrametria) cobre coberturas, fachadas e terreno. Em muitos projetos combinam-se numa única nuvem registada.

Quanto tempo demora um Scan to BIM?

A captura costuma ser a parte curta: de horas a poucos dias em campo. O que marca o prazo é a modelação, que depende da área, das disciplinas (só arquitetura ou também estrutura e instalações) e do LOD pedido.

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